– Você tem a chave do cadeado da bicicleta?
– Eu não te passei?
– Não!
– Tá aqui!
Depois de um agradecimento, o rapaz subiu na bike, acendeu a lanterna frontal, o pisca debaixo do selim. Bem do mesmo jeito que eu fazia sempre, todos os dias. Mas eu me enganaria se achasse que aquilo era um reflexo meu. Era só mais uma chave que eu entregava.
O sujeito deu então uma primeira pedalada e se foi, cada vez mais distante, tomando velocidade, se afastando para sempre de mim. O pisca vermelho agora parecia uma estrela distante no céu, a bicicleta cada vez mais indistinguível no horizonte. Até que, numa esquina qualquer, tudo some. A luz, a bicicleta, as chaves.
Já morei em lugares onde as chaves nunca eram utilizadas. As portas ficavam sempre abertas. Me foram dadas logo na minha entrada, e requisitadas violentamente na saída. Nesse meio tempo, era difícil entender o motivo das portas sempre abertas. Nenhuma dificuldade, nenhuma justificativa para o simples chegar ou para a ordinária partida.
Eu chegava a me questionar: – Se as chaves não são úteis aqui, então para quê tantas portas?
– Dilvo, quero que você deixe o apartamento agora mesmo!
Foi então que compreendi o motivo das chaves e das portas. Deixei as chaves na mesa, saí sem trancar a porta.
Quando criança, sempre que mamãe queria nos impedir de ir à rua, passava o cadeado no portão e sumia com a chave. Geralmente, ela escondia debaixo de uma coberta que ficava no alto do guarda-roupas.
Não tínhamos coragem de roubar as chaves e escapar desapercebido. Mesmo porque não teria como bancar o David Copperfield. Então, eu e meu irmão ficávamos lá com a cara espremida entre as grades do portão, querendo ganhar o mundo.
Mas não passou muito tempo até que as chaves de casa vieram para nosso bolso sem a gente nem perceber. A decisão era toda nossa de ir ou vir. Parecia fácil demais. Aí veio outra lição. Aquelas chaves eram toda a beleza e as responsabilidades da vida, as derrotas e vitórias. Eram meus pais destrancando o mundo pra mim. Mas eles não me deram todas as chaves de todas as portas.
Lembro que quando saí de casa, aquelas chaves tinham um peso danado. Elas eram as mesmas três que eu carreguei no bolso desde os 14 anos. A chave do portão, da porta da sala e da bicicleta. O portão, a porta da sala e a bicicleta sempre fizeram parte da minha vida. Não por acaso, hoje aos 36 anos, ainda ando com as chaves para as mesmas coisas.
Já tive chaves de carro, chaves do portão da casa da namorada, chaves do meu armário na época da natação, as chaves da empresa e tantas outras. Entretanto, nunca ficaram muito tempo nas minhas mãos. Por isso, chego a acreditar que a gente não precisa atravessar tantas portas assim, nem ficar expondo um molho tintilante para fora do bolso da calça.
Eu não sei. Talvez eu não entenda nada da vida também. O entendimento das coisas é um tipo de tranca que ainda não tenho muita habilidade de abrir. Talvez porque ainda falte muitas portas para abrir. Ou talvez porque eu tenha deixado algumas portas abertas por tempo demais.
Nem todas as chaves nos pertencem.